sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A maquiagem da dengue - Editorial Diário da Região.

Extremamente preocupante a denúncia de que o prefeito Valdomiro Lopes (PSB) determinou à Secretaria de Saúde que não notificasse mais do que 12 mil casos de dengue em Rio Preto, para não superar o recorde da doença registrado em 2006. A informação não se refere apenas a esconder da população a real extensão da epidemia, mas omitir os dados até mesmo do Ministério da Saúde. A ordem teria sido dada, segundo depoimento do enfermeiro Sílvio Luís Mano Sanches ao Ministério Público, no final de fevereiro deste ano, quando a média de notificações diárias da doença já prenunciava que o município viveria o pior ano da história. Em entrevista exclusiva ao Diário, no dia 1º de fevereiro - cerca de um mês antes da suposta determinação, quando a cidade contabilizava apenas 1.172 casos de dengue -, o secretário de Saúde, José Victor Maniglia, afirmara que Rio Preto já vivia “franca epidemia” e que, se as notificações continuassem daquela forma, a cidade chegaria ao mês de abril com mais de 20 mil casos.

É óbvio que, sem a conclusão da investigação do Ministério Público, não se pode afirmar que Valdomiro mandou mesmo esconder os casos de dengue. Mas há importantes coincidências entre o depoimento de Mano Sanches e a história da dengue em Rio Preto. A primeira delas é o fato de a Saúde interromper no início de março, sem qualquer aviso prévio ou justificativa, a divulgação quase que diária dos números. O último boletim da época foi no dia 2 de março, quando a cidade já registrava 6.601 casos, uma média de 110 por dia. A segunda coincidência é que a Saúde, ao voltar a divulgar números da doença 20 dias depois, só confirmou 209 casos novos, exatamente quando a emergência dos postos de saúde e dos hospitais públicos e particulares explodiam de pacientes com os sintomas da doença.

Para justificar a queda brusca nos números, a Saúde rebolou e apresentou justificativas duvidosas. Primeiro disse que a previsão era mesmo de queda, depois que os exames não estavam sendo feitos por falta de kit do exame sorológico. Depois que os pacientes com suspeita da doença não eram encontrados para o exame. E, quando em pleno inverno, retomou a divulgação de cerca de mil casos a cada dez dias, disse que os casos eram referentes às notificações de abril, maio e junho, cujas fichas estavam sendo refeitas e digitadas. Ou seja, fatos que se ajustam à declaração do enfermeiro. De qualquer forma, sendo a ordem verdadeira ou não, a denúncia é gravíssima. Cabe ao promotor Sérgio Clementino fazer uma investigação profunda dos fatos relatados pelo servidor. Por outro lado, cabe ao prefeito, que afirma jamais ter dado tal ordem, determinar que se apure o motivo supostamente infundado da denúncia. Omitir qualquer informação relativo à saúde pública é crime - e o prefeito, enquanto médico, deve muito bem saber disso. 
 
Fonte: Diarioweb

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