quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Apadrinhador e apadrinhados



Padrinhos são amigos do peito escolhidos pela família nos sacramentos do batismo e da crisma. Exceto os desnaturados, solidarizam-se com seus afilhados e assumem o compromisso de provê-los, material e espiritualmente, na falta dos pais. Em ampliação dos sentidos e sempre na órbita do bem, há padrinhos de casamento, de formatura e até de inaugurações, sendo esses também designados como paraninfos e patronos. Nos enlevos da vida, os padrinhos são fundamentais nos ritos iniciáticos e simbolizam nossa incessante busca da felicidade. Mas como o diabo sempre mete o dedo em tudo que bom e, manipulando a química das iniquidades, fez surgir das trevas o apadrinhador. Com esse, a falange dos apadrinhados. Criaturas desse enredo são frequentes. E frutificam em tempos de degradação social, com resultados mesquinhos. Assim sucedeu quando o incestuoso e desvairado Calígula escolheu como apadrinhado seu cavalo Incitatus. Além de nomeá-lo senador romano, deu-lhe de brinde um palácio. Uns apadrinhadores são petulantes e o aparelhamento do Estado se incha de transações espúrias e benesses corporativas. Outros encenam constrangimento e justificam seus apadrinhados (funcionais, vagabundos, venais e “consigliere”) como os azes da governabilidade. Às vezes, num triz de lucidez, pressentem que seus pupilos encarnam corrosiva gosma na máquina estatal, o bando de chupins instititucionais do erário e desbragados lúmpens do desgoverno. Apadrinhador e apadrinhados, de todos os modos, usufruem o patrimônio público como Cosa Nostra. 

Diferentemente do padrinho benfazejo, o termo “padrinho”, no sentido de “apadrinhador”, aparece precedido do artigo “o” que o faz diferir dos demais padrinhos. Designa a forma medonha e detestável de “il padrino” ou “the godfather”: o chefe da máfia. Nessa quadrilha tudo é “coisa nossa” (contanto que fique ao chefão a maior fatia). Assim, apadrinhador e apadrinhados instituem o sistema mafioso como tantos que se armam, rosnam, vilipendiam e saqueiam as conchinchinas do mundo. O termo “máfia”, na dialética do apadrinhador e apadrinhados, deriva do adjetivo siciliano “mafiusu”, por sua vez herdado do árabe “marfud” (em tradução livre, o mandão temido, arrogante). Uma das representações mais incisivas dessas “famiglie”, seus asceclas e métodos surge em “The Godfather” (1969), de Mario Puzo, romance que originou a esplêndida trilogia “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. No livro e no filme, alegorizam-se os germes do crime organizado e o chão sombrio donde brotam mandantes e súditos, apadrinhador e apadrinhados. Eles se alastram como epidemias em nações, cidades e vilas em que o medo e a parca educação apagam nos seres o senso de cidadania. A força da justiça se definha e murcha com ela a virtude da ética. O contexto social degradante abre cancha às nomeações de Incitatus equíneos e à corrupção endêmica, na incitação da política rasa enquistada de desmandos. Avulta-se, como na tela do cinema, o império da fraude, dos atrevimentos e da desvergonha. 

ROMILDO SANT’ANNA
Livre-docente, membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura 

Publicado no Diário da Região

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