domingo, 19 de janeiro de 2014

ROLEZINHO: A NOVA ARMA DA ESQUERDA PARA DISCRIMINAR A CLASSE MÉDIA

Por João Pitella Junior
Sem levar em consideração os critérios técnicos do IBGE, a classe média é formada pelos não muito pobres nem milionários. É uma parcela considerável dos brasileiros e paga quase todas as contas do país, já que os grandes empresários costumam usar jeitinhos para sonegar impostos e, quando não conseguem, transferem os seus prejuízos para os consumidores, assim como o governo faz com os contribuintes. A classe média banca os programas sociais e de “transferência de renda”, aqueles que eram chamados de “políticas assistencialistas” quando a esquerda não estava no poder. Pelo fato de sustentar o Brasil, a classe média deveria receber agradecimentos de todos os lados, mas se tornou de vez a Geni, a vilã a ser apedrejada.
Um exemplo desse preconceito foi a forma cínica como a mídia tratou, em 2013, a aprovação da PEC do Trabalho Doméstico no Congresso. A PEC se tornou um pretexto para a classe média ser acusada, covardemente, de promover um “resquício da escravidão” ao manter empregados domésticos. Graças a esse tipo de atividade econômica, que nada tem a ver com escravidão, milhares de pessoas pobres sustentam as suas famílias e financiam os seus estudos. Em Brasília, as funcionárias domésticas que conheço têm salários bem superiores aos que eu recebia nos meus três primeiros anos como jornalista num dos principais veículos de comunicação da capital. Elas podem escolher onde e em que horários vão trabalhar, pois a demanda pelos seus serviços é alta, e mesmo assim foram comparadas de maneira cretina aos escravos. Defendo que elas tenham cada vez mais direitos, sem que isso seja usado como instrumento de demonização dos empregadores.
Agora, a imprensa e os seus lacaios das redes sociais encontraram uma nova forma de difamar a classe média: acusá-la de ser preconceituosa, elitista e até racista por se opor aos chamados rolezinhos nos shoppings. Como disse um conhecido meu, os intelectuais de esquerda seriam os primeiros a fugir em pânico se estivessem em algum lugar tomado de repente por uma multidão que grita e corre sem objetivo claro. Afastar-se da confusão para não se machucar e fechar as portas de lojas para evitar prejuízos são reações naturais, independentemente de o tumulto ser promovido por pessoas brancas ou negras, ricas ou pobres, jovens ou idosas. Mesmo que ninguém roube nada durante os rolezinhos, não há como negar que esse tipo de situação compromete a segurança e a integridade física de clientes e trabalhadores. Pessoas mais velhas podem ser derrubadas e ter fraturas das quais nunca vão se recuperar inteiramente. Crianças podem ser feridas.
Não se trata de discriminação: a realidade é que os frequentadores dos shoppings têm o direito de querer sossego, diversão e segurança, até porque não encontram essas três coisas juntas em outros lugares das metrópoles brasileiras. Ao contrário do que ocorre em países civilizados, faltam por aqui opções decentes de lazer ao livre. Resta ir aos shoppings, o que não deixa de ser triste, mas é inevitável. A classe média não inventou a falta de segurança pública nem a exclusão social.
Em qualquer país não governado por ditadores, os comerciantes e os seus funcionários têm a prerrogativa de trabalhar em paz. Defender o direito de centenas de pessoas tumultuarem um shopping sob o pretexto de “dar um rolé” — como se fosse o caso de um simples passeio, e não de baderna explícita — é forçar demais a barra do culto ao “politicamente correto”. Haja apelação para enxergar, nos rolezinhos, uma forma legítima de protesto contra o capitalismo ou de fenômeno cultural.
É muita hipocrisia acusar os shoppings de agirem com preconceito por barrarem a entrada dos participantes desses movimentos, pois a regra do jogo sempre foi clara nos centros de compras: eles são áreas privadas, com espaços abertos ao público em horários específicos para atividades econômicas, e não protestos ou manifestações de massa. Os shoppings têm placas para informar o que é proibido. Eu já fui impedido de fazer reportagens dentro do Conjunto Nacional sem autorização dos seus administradores. Fui advertido por seguranças ao correr dentro do Iguatemi. Já fui avisado, em dois restaurantes de Brasília, que precisaria me retirar se não comprasse comida. Em outro, não pude beijar a moça que era minha namorada, por se tratar de  ”lugar de família”. E não pude entrar numa área do Park Shopping que estava reservada para um evento particular. Nada disso foi preconceito. São apenas regras.
Em shoppings paulistas, me senti mal ao ser olhado com desdém por vendedores e clientes porque eu não estava muito bem vestido, mas ninguém me forçou a frequentá-los. As pessoas entram nos shoppings por decisão própria e sabem que precisam respeitar as normas, escritas ou não, desses lugares. Nos Estados Unidos, lojas e restaurantes avisam que poderão recusar atendimento a algum cliente, e nenhum empresário é preso por isso. Ninguém pode ser obrigado a receber em sua casa, ou no seu ponto comercial, uma visita indesejada.
O  Iguatemi do Lago Norte é um “monumento à segregação social”, como dizem no Facebook os organizadores do rolezinho marcado para o dia 25/1? Tenho minhas dúvidas, mas, se isso for verdade, não seria o caso de desprezá-lo, em vez de fazer tanta questão de passear lá dentro? Fica difícil acreditar nas intenções democraticamente edificantes do movimento quando os seus promotores avisam, na internet, que “posts contra o rolezinho serão sumariamente excluídos”.
Outra coisa que me revolta é constatar, nas redes sociais, elogios de pessoas esclarecidas à bagunça promovida durante os rolezinhos. Hoje ninguém tem coragem de ensinar aos jovens como se comportar em sociedade, ninguém se arrisca a incentivá-los a respeitar os espaços alheios. Vale tudo em nome do combate ao “sistema”. Isso vai nos levar a um país cada vez mais distante da civilização, na contramão do mundo. E não é exatamente isso o que a nossa “esquerda” aliada do Maluf deseja? Creio que sim.
Agora, com licença, amigos. Vou ver se consigo dar um rolé no Primeiro Mundo.

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